segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A PALAVRA EM OUTRAS DIMENSÕES: LEITURA DE OBRAS DE ARTE


ANÁLISE DA PINTURA DE WILLIAM HUNT

LITERATURA INGLESA

ANÁLISE DE OBRA DE WILLIAM HUNT, PINTOR PRÉ-RAFAELITA
Profa. RENATA LOPES FARIA


A ARTE PRÉ- RAFAELITA

A Irmandade Pré-Rafaelita nasce de um grupo de jovens insubordinados, descontentes com a estética acadêmica e o mundo ainda romântico de meados do século XIX. Os especialistas distinguem-lhe dois momentos: o primeiro, da fundação, entre 1848 e 1853, que inclui William Hunt, Dante Gabriel Rossetti, John Everett Millais enquanto pintores, o escultor Thomas Woolner, os poetas James Collinson e George Meredith.
Inicialmente, pintores, poetas e escultores pretendem apenas reagir contra o materialismo vitoriano e as convenções neoclássicas.
Segundo William Holman Hunt, o termo pré-rafaelita nasce quando ele próprio e Millais, ainda alunos na Royal Academy. Ambos criticam a «Transfiguração» de Rafael. Os amigos consideram-nos ousados demais e por isso os ridicularizam chamando-os de pré-rafaelitas. A designação é oficialmente aceita em 1848, e fundamentada pela busca concreta da inspiração na pintura anterior a Rafael e à revolução que este pintor instaura pela introdução da perspectiva. Os Pré-Rafaelitas, como William Holman Hunt, eram marcados de extremismo puritano e moral e a sociedade da época identificou-se com sua arte. Quando resolvem abandonar o movimento [por querelas pessoais ou mudanças de opiniões] deixam a Inglaterra sob a influência de uma escola que não só tem um impacto enorme no pensamento popular, na pintura e na poesia, como ainda no «design» de interiores, ornamentação de igrejas, encadernação de livros, fabrico de mobílias e artigos domésticos.

William Hunt [1827-1910]
William Holman Hunt foi o co-fundador da Irmandade Pré-Rafaelita, juntamente com seu amigo John Everett Millais [1829-96], que conheceu na escola da Academia Real, em 1844. Embora o grupo tenha se dispersado depois de cinco anos, Hunt permaneceu fiel aos ideais da Irmandade por toda vida. Fez várias viagens ao Egito e à Terra Santa para pintar cenas bíblicas, o que fazia com atenção tipicamente pré-rafaelita à exatidão dos detalhes locais.
O século XIX contou com vários processos tecnológicos, dentre eles a fotografia que se difundiu rapidamente como uma nova forma de captar a realidade e conseqüentemente acabou com o monopólio do pintor. Hunt viveu nesta época, porém registrou seu tempo e cenas com cores brilhantes, como que tentando desafiar a precisão da fotografia em preto e branco na época. In: Para entender a arte de Robert Cumming, a tradução é de Isa Mara Lando , editado pela Editora Ática em 1996, páginas 80 e 81.
A obra que vamos analisar é O despertar da consciência; ela desenvolve o tema da mulher decaída, muito abordado pelos romancistas do período vitoriano, na busca de retratar e/ou criticar situações observadas durante tal momento. A tela é uma narrativa visual que retrata uma cena doméstica e é rica em simbolismos. A mensagem tem forte cunho moral e apresenta nítida posição crítica do pintor com relação ao comportamento feminino, cabendo a ela a conscientização e a responsabilidade de viver de acordo com os moldes da rígida moral vitoriana.
O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA: UMA ANÁLISE

Vamos iniciar nossa análise pelo fundo da imagem: observem que há uma janela: ela mostra um jardim ensolarado com muito verde [a cor da esperança] e algumas flores [rosas brancas?] [o branco sempre é a cor da pureza ; pode não ser a virginal, mas pode ser a espiritual] . A janela é a abertura para o mundo exterior, uma saída, representa a luz do mundo e é para onde a jovem olha como que se tivesse acabado de descobrir algo que só ela notou, pois o rapaz continua entretido a tocar o piano com uma das mãos e a outra está estendida onde repousava, há pouco, as mãos da jovem. A luz pode ter aqui o significado de: salvação divina, consciência iluminada.

Segundo pesquisas, o rosto da jovem foi repintado, porque quem encomendou o quadro a Hunt, dizia que não conseguia observar a expressão de tristeza no rosto da jovem na pintura original. Hunt, então, refez seu rosto iluminando-o com a luz do sol que vem do jardim, como nós o observamos.

Todo o ambiente é rico em significação simbólica. Observemos as paredes ao fundo, mais precisamente atrás da jovem: o papel azul de parede tem como detalhes uma videira [a uva tem dois caminhos: o de Baco ou Dioniso – que é o da embriaguez, aquele da experimentação das emoções mundanas e o caminho da espiritualidade / vinho =sangue do Cristo – que é o caminho do esforço para não cair em tentação]. Abaixo da videira, há trigo [simboliza o pão. [Como conseguimos o pão de cada dia? Como ele nos chega à mesa?] e está também um Cupido adormecido (na sala de aula, alguns alunos disseram que tal cupido parecia um E.T.), sem se preocupar em cuidar da plantação que está sob os seus cuidados. [Mas o que estaria sob os cuidados de cupido nesta cena?Vale lembrar, que o puritano Hunt quis dar a entender que a mulher que deve guardar com cuidado sua castidade como o agricultor deve guardar seus campos].

Observemos agora o piano: acima dele, fixado na parede, está um quadro que retrata uma cena bíblica, o episódio da mulher adúltera. Sobre o piano está um relógio onde se vê a imagem de um Cupido aprisionado [parece que o jovem não está interessado em amor]. Ao lado do relógio, mais ao fundo encontra-se um vaso de flores: são campânulas e estão emaranhadas a outras flores: é uma metáfora das relações complicadas da jovem. Esta observação é reforçada pelos fios emaranhados espalhados pelo chão: eles demonstram a situação delituosa que a jovem está vivendo. No piano ainda está a partitura de uma canção da época: Tantas vezes na noite silenciosa. Segundo a análise de Robert Cumming, esta canção aborda a inocência da mulher quando criança [É possível ser este momento da letra que iluminou o rosto da jovem?]

Observem os dedos da mão esquerda da jovem: não há anel no dedo anular, onde deveria portar uma aliança. Este detalhe reforça a idéia de que ela seja a amante do jovem vitoriano, portanto dependente dos caprichos do rapaz. Ela depende financeiramente dele, e caso o jovem não a queira mais, é provável que ela deva recorrer à prostituição. O chapéu à mesa também reforça a idéia de ela seja amante do jovem e este não seja morador da casa. Já o livro nos traz à realidade de Hunt: ele demonstra os planos do pintor de ensinar a ler e a escrever, sua namorada Annie Miller. Aliás, para conseguir mais exatidão ao que queria retratar, Hunt alugou uma casa em St. John’s Wood, no norte de Londres, lugar conhecido onde os ricos mantinham suas amantes. E a modelo é a própria namorada de Hunt.

Passemos nosso olhar, agora, para o chão: além dos fios já mencionados, sobre o tapete vermelho [cor da paixão e não do amor], está uma adaptação musical feita por Edward Lear [Lembram-se daquele poeta que comentamos, muito amigo de Lewis Carrol e escritor de poemas nonsense?] A música se intitula Lágrimas, lágrimas vãs que é um poema de Tennyson. A música contrasta a inocência da infância da jovem com sua situação atual que é de ruína moral.

Abaixo da mesa, ao lado do jovem, há um gato que tem próximo de si um indefeso pássaro: é uma metáfora do que acontecerá com a moça se ela continuar com ele. O gato representa o rapaz e a mulher o pássaro, que se torna um joguete nas mãos de seu amante:ele brincará com a amante até quando esta situação se trouxer prazer, depois, descartar-se-á dela. Mas, observem melhor: o pássaro parece estar escapando das garras do gato. Assim também parece que ocorreu o mesmo com a jovem: ao se conscientizar de sua realidade, percebe também que é possível uma mudança de vida. O facho de luz incidindo no pé do piano e sobre os fios emaranhados [Lembram-se que eles simbolizam a complicada vida da jovem] , reforçam a idéia do despertar da consciência da jovem.

Com certeza, depois da tela “lida”, graças a Robert Cumming, podemos olhar uma obra de arte com outro olhar: O que um pintor quer expressar? Qual sua visão de mundo? Que mensagem ele deixa ao observador? Todos os detalhes de uma obra são relevantes: as cores, o enquadramento, o jogo de luz e sombra, as linhas retas/curvas, os motivos retratados, etc.

Espero que tenham apreciado o estudo de uma obra de arte e também compreendido o peso moral que estava presente em muitas manifestações artísticas do período vitoriano. A próxima obra a ser analisada será O Pastor também pintado por Hunt. Então, até a próxima análise!!!

BIBLIOGRAFIA:
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dictionnaire des Symboles. Paris: Éd. Jupiter,1982
CUMMING, Robert. Para entender a arte. Trad.Isa Mara Lando. São Paulo:Editora Ática,1996




A PALAVRA na língua dos poetas

PROCURA DA POESIA
Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Falar de Carlos Drummond de Andrade, lê-lo, penetrar nas suas palavras é algo que apenas nos engrandece como seres humanos. Num exercício de metalinguagem, ele nos convida, nos chama para adentrarmos no reino das palavras, através da poesia. Nesse reino, não há governantes, nem governos, nem sistemas políticos. É um reino inexoravelmente democrático. Você entra nele e vai construindo seu próprio governo. As palavras estão ali, escritas, expostas e dispostas para que cada um as descubra. Estão ali, no poema, paradas, mas a cada leitura elas criam nova vida, novo ardor, porque as palavras, quando descobertas, ardem na mente e no peito de quem as desnuda. “Penetra surdamente no reino das palavras” e descubra-se!

Olá, amigos, aqui vai uma breve apresentação

Regina Helena Moraes, sou professora da rede pública estadual, na área de Língua Portuguesa, há 23 anos e docente do ensino superior, há 7, ministrando aula nos cursos de Letras e Pedagogia, nas disciplinas de Língua Portuguesa, Leitura e produção de texto, Lingüística Aplicada e Linguística.

Renata Lopes Faria, professora da rede pública estadual, na área de língua portuguesa e professora do ensino superior há 4 anos. Na rede particular atua nas áreas de teoria literária, Literaturas Inglesa e Norte-Americana.

Por essas breves informações, pensamos que já dá para se ter a idéia de que respiramos letras, que formam palavras, que formam frases e textos, e poemas, e crônicas, e romances, mas não só de literatura vivemos. No meio das palavras, há espaço também para os textos científico-acadêmicos, os argumentativos, os informativos, enfim, tendo LETRAS...sendo cultura e conhecimento, tudo cabe neste espaço de compartilhamento e integração..

Assim, sejam bem-vindos em Na Ponta da Língua.. tem... Letras. A finalidade desse blog é fazer uma integração entre alunos e professores do curso de Letras, do Centro Universitário Anhanguera-Faculdade de Educação de Pirassununga, bem como professores e alunos da escola básica. Como nossa palavra-chave é integração, esse espaço está aberto a todos os participantes para que possam fazer trocas de experiências, abrir discussões, colocar produções próprias. Além disso, estará disponível a todos, textos e indicações de leitura das áreas já citadas, assim como produções de alunos. Os alunos podem retirar dúvidas e pedir orientações, os professores podem sugerir atividades, colocar textos, em suma...este é um espaço de e para todos que amam essa “última flor do Lácio, inculta e bela”.